quinta-feira, abril 3, 2025
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Queimadas na Amazônia: Ciência e saberes tradicionais precisam caminhar juntos para garantir manejo equilibrado do fogo

Por: Mayerly Alexandra Guerrero Moreno, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA); Everton Silva, Universidade Federal do Pará (UFPA); José Max B. Oliveira-Junior, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e Leandro Juen, Universidade Federal do Pará (UFPA)

O fogo, apesar de ser uma prática tradicional de manejo na Amazônia, tornou-se um dos principais agentes de degradação ambiental. Seu uso descontrolado — intensificado pelas mudanças climáticas, pelo desmatamento e pela expansão de atividades como pecuária, agricultura e mineração — está afetando profundamente a biodiversidade, a qualidade do ar e a saúde das populações locais.

Enfrentar os desafios do fogo na Amazônia exige a implementação de políticas que combinem regulação ambiental, fiscalização eficaz, incentivo a práticas sustentáveis e governança do uso do fogo. Para isso, a ciência deve caminhar junto aos saberes tradicionais para garantir que o manejo do fogo seja feito de forma mais equilibrada e eficiente.

O que a ciência mostra sobre o fogo na Amazônia?

Para analisar de forma detalhada os impactos do uso do fogo na Amazônia brasileira, reunimos uma equipe de pesquisadores das Universidades Federais do Oeste do Pará (UFOPA) e do Pará (UFPA), e da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Juntos, analisamos a produção científica sobre o uso do fogo na Amazônia brasileira. Dessa pesquisa resultou o artigo The Impacts of Fire Use in the Brazilian Amazon: A Bibliometric Analysis, publicado na revista International Journal of Wildland Fire.

Analisamos 192 artigos científicos das bases de dados Scopus e Web of Science e identificamos que o ano de 2020 registrou o maior número de publicações sobre o tema. Esse aumento coincide com um dos períodos mais críticos de queimadas na região, reflexo do avanço do desmatamento e da flexibilização das políticas ambientais naquele período. Essas políticas enfraqueceram a fiscalização e permitiram práticas que comprometeram a sustentabilidade da floresta e, consequentemente, das populações que dependem dela.

Os impactos do uso do fogo na Amazônia Brasileira são múltiplos e interconectados. Entre os principais impactos identificados no estudo estão:

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1) Degradação ecológica: o uso recorrente do fogo, especialmente associado ao desmatamento e à expansão agropecuária, compromete a biodiversidade, degrada o solo e altera o equilíbrio dos ecossistemas, promovendo a transição de florestas tropicais densas para paisagens abertas e empobrecidas. Esse processo afeta de forma direta a fauna e a flora da região. Sua gravidade é intensificada por eventos climáticos extremos como as estiagens, que passaram a ser cada vez mais frequentes no Bioma.

2) Emissões e poluição: a queima de biomassa florestal libera grandes volumes de gases de efeito estufa, agravando o aquecimento global e contribuindo para que a Amazônia deixe de atuar como sumidouro de carbono. A fumaça das queimadas, por sua vez, se espalha além das fronteiras locais, afetando a qualidade do ar e os regimes climáticos.

3) Mudanças climáticas: a perda de biomassa reduz a capacidade da floresta em regular o ciclo hidrológico, afetando a evapotranspiração e, consequentemente, a formação de chuvas em diferentes partes da América do Sul. Isso favorece o prolongamento das estações secas, ampliando a vulnerabilidade da floresta a novos ciclos de incêndios. Além disso, diminui a recarga do lençol freático e, consequentemente, das águas dos igarapés e rios da região.

4) Prejuízos socioeconômicos: as perdas econômicas causadas pelo uso inadequado do fogo afetam principalmente as comunidades tradicionais e os pequenos agricultores, que são os mais afetados, enfrentando perdas de meios de subsistência. Isso gera insegurança alimentar e aumento nos conflitos fundiários. Mesmo aqueles que possuem recursos para controlar seus próprios incêndios frequentemente sofrem danos causados por focos de fogo vizinhos.

5) Impactos à saúde e à qualidade de vida: a exposição prolongada à fumaça das queimadas está associada ao aumento de doenças respiratórias, particularmente entre as crianças e os idosos, além de potenciais danos genéticos, inflamações sistêmicas e disfunções cardiovasculares, assim como a possibilidade de desenvolver câncer a longo prazo. Essa situação se torna ainda mais preocupante quando é considerada a combinação de fatores ambientais, sociais e estruturais, que limitam o acesso das populações afetadas aos serviços médicos e a condições adequadas de saneamento, alimentação e moradia.

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Fortalecimento da ciência na Amazônia

Apesar da grande produção científica sobre o tema, o estudo revelou um desequilíbrio na distribuição geográfica das pesquisas. Embora o Brasil lidere os estudos, uma cifra representativa das pesquisas na Amazônia brasileira ainda é conduzida por países do Norte Global, deixando os pesquisadores e instituições amazônicas em uma posição secundária.

Isso reforça a necessidade urgente de fortalecer a ciência produzida na região, garantindo maior protagonismo da pesquisa local na formulação de políticas e estratégias eficazes para a gestão do fogo.

Outro dado importante revelado no estudo é a predominância de pesquisas sobre incêndios florestais em comparação com a queima de biomassa e a prática de corte-e-queima. Isso reflete, em parte, a crescente preocupação global com os incêndios na Amazônia, mas também indica a necessidade de se entender melhor o papel das práticas tradicionais de uso do fogo e buscar alternativas sustentáveis.

As queimadas estão profundamente enraizadas nas atividades agropecuárias da região, o que torna sua regulamentação um desafio complexo, que exige equilíbrio entre o respeito às práticas locais e o combate às queimadas ilegais.

Mesmo quando realizadas em escala local ou regional, as consequências das queimadas são gerais e criam uma ameaça crítica ao equilíbrio climático e à biodiversidade mundial. Nosso estudo mostra, portanto, que o aumento da fiscalização e a criação de políticas mais eficazes são essenciais para coibir o uso criminoso do fogo, que muitas vezes é até estimulado ou orquestrado por verdadeiras organizações fora da lei.

Ciência e conhecimento tradicional: a chave para soluções mais eficazes

Diante desse cenário, o conhecimento tradicional das comunidades amazônicas deve ser valorizado e integrado às políticas públicas. Reconhecer os saberes locais e práticas tradicionais é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de manejo mais eficazes. Para isso, as colaborações interdisciplinares são de extrema importância: o desenvolvimento de pesquisas interdisciplinares e a colaboração entre a academia, governo e comunidades são essenciais para encontrar soluções contextualizadas que protejam a biodiversidade da Amazônia e melhorem a qualidade de vida das populações locais.

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Essa pesquisa é um passo fundamental para compreendermos os impactos do fogo na Amazônia e como ele afeta tanto a biodiversidade quanto as populações que dependem da floresta. Integrado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Sínteses da Biodiversidade Amazônica (INCT-SynBiAm) e ao Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Oriental (PPBio-AmOr), nosso estudo tem o objetivo de alinhar o conhecimento científico à conservação e ao desenvolvimento sustentável das comunidades tradicionais, promovendo estratégias eficazes para a gestão do fogo e a preservação da Amazônia.

Além dos autores desse texto, também participaram da pesquisa Amanda Kesley Cardozo Cancio, Fernando Abreu Oliveira e Thiago Almeida Vieira, da UFOPA; Karina Dias-Silva e Lenize Batista Calvão, da UFPA; e James Ferreira Moura Junior, da UNILAB.The Conversation

Mayerly Alexandra Guerrero Moreno, Doutoranda em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA); Everton Silva, Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Universidade Federal do Pará (UFPA); José Max B. Oliveira-Junior, Professor Adjunto IV no Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA), Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e Leandro Juen, Professor Associado III de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Pará (UFPA)

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons


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